No dia 21 de Março, os companheiros da Unidade Vermelha publicaram em seu site um artigo (http://unidadevermelha.com.br/nota-em-resposta-a-analise-da-urc-sobre-as-manifestacoes-de-marco/) onde analisam a nota “Unidade da classe operária contra o avanço conservador e anticomunista, em defesa das organizações populares!”. Saudamos a iniciativa dos companheiros, pois achamos que o debate franco entre organizações amigas é fundamental para fazer avançar as posições corretas do marxismo-leninismo.
O maior representante do imperialismo?
O
artigo da UV começa por criticar nossa caracterização do caráter
de classe do PT feita pela URC, classificando-a como um “erro de
analise”. Afirmam os companheiros da UV:
Tal foi
nossa surpresa em tamanho erro de análise. O PT não expressa em
absoluto os interesses da média burguesia brasileira. O PT é o
maior representante do imperialismo e da grande burguesia.
Se algumas
pessoas podem apontar uma certa dose de exagero em considerarmos o PT
como um partido da “média burguesia”, como poderíamos
classificar caracterização de que o PT é o maior
representante do imperialismo e da grande burguesia
no Brasil, feita pelos companheiros da UV?
Evidente
que no interior do PT existem setores com posições que se
identificam com as posições do imperialismo norte-americano em
todos os principais assuntos (só lembramos de figuras como Palloci),
mas daí passar a considerar o partido como o principal representante
do imperialismo, é não querer analisar de maneira concreta a
realidade. Nossa caracterização do PT, como partido da média
burguesia, está inteiramente baseada nos fatos, levando em
consideração o caráter dual
de tal classe, bem como suas várias frações.
Analisando
brevemente a trajetória do PT, o que podemos observar?
Os
companheiros da UV sabem que o PT surgiu num momento particular da
história do país, onde a ditadura fascista-militar dava sinais
claros de esgotamento político e econômico, fato esse que culminou
em uma série de greves operárias. O movimento comunista havia sido
completamente destruído, principalmente após a Chacina da Lapa,
fato que permitiu ainda mais o avanço do revisionismo, não só de
direita, como também de esquerda. A própria fundação do PT contou
com apoio entusiasta de muitos elementos revisionistas, sectários,
“esquerdistas”. Nessa época, mesmo contando com uma forte base
operária, o PT era uma organização que expressava os interesses de
uma pequena-burguesia radicalizada, irritada com a ditadura, mas que
não via no comunismo e no socialismo uma saída para os seus
problemas, ainda que teoricamente falassem em socialismo e comunismo.
Não precisamos lembrar que em seu documento de fundação, o PT se
coloca até mesmo como uma organização “anticapitalista”,
bandeira que até hoje é levantada por algumas de suas tendências
internas e faziam – vejam só – crítica ao “etapismo” dos
comunistas.
Lembremos
que essa época era uma época onde os países socialistas do Leste
Europeu, comandados pelo revisionismo, bem como a própria URSS
revisionista, já davam evidentes sinais de crise, fruto de anos de
aplicação de políticas equivocadas e restauracionistas, algo que
contribuiu em grande medida para minar a influência ideológica do
Movimento Comunista Internacional dentro do movimento operário em
praticamente todos os países. O PT, pressionado pela ideologia
burguesa e pelo imperialismo, pensava dar respostas a certos
problemas teóricos do socialismo, mas sempre o fez aderindo a um
discurso que conciliava a retórica esquerdista, com a mais pura
vulgaridade reformista.
Com o
passar dos anos, aumentando sua influência no seio da sociedade
brasileira, açambarcando bandeiras e elementos de consciência
democrática e popular, e a posterior crise geral do Movimento
Comunista Internacional com a queda da URSS, o PT finalmente se
consolidou como o principal partido de esquerda do país. Ainda nessa
época, muitos elementos da burguesia nacional brasileira também se
aproximaram do PT, ajudando na articulação e financiamento das
campanhas eleitorais. Entorno do partido se formou uma frente de
organizações reformistas e revisionistas, que viriam a participar
de inúmeros processos eleitorais, mas que propunham como saída para
os problemas do Brasil a administração do Estado brasileiro. Foi
nesse processo que muitas organizações se transformaram em meras
máquinas eleitoreiras, adeptas do cretinismo parlamentar.
A pressão
ideológica da ala direita da
burguesia nacional sob os elementos
instáveis da pequena-burguesia e das camadas dirigentes do movimento
sindical petista fez com que, aos poucos, o partido fosse se
desfazendo do seu linguajar pseudo-radical, limitando-se a criticar o
neoliberalismo. Não só a burguesia nacional pressionava o PT, mas
também o imperialismo, via partidos direitistas e meios de
comunicação monopolistas. O PT precisava vender a imagem de que,
estando na gerência o Estado burguês brasileiro, seria um “bom
administrador” e resolveria de “maneira responsável” os
problemas de todos os brasileiros. O discurso retórico
“anticapitalista” foi substituído aos poucos por um discurso
meramente nacionalista, “desenvolvimentista”, em prol de um
“projeto nacional”.
Ainda antes
de chegar ao governo, em 2002, o PT, sempre atuando de maneira
oportunista no seio do movimento operário e popular, cumpria um
papel importante como força que aglutinava representantes da pequena
e média-burguesia, bem como vastos setores do proletariado e
camponeses que há anos lutavam por seus direitos e resistiam ao
neoliberalismo. Foi o impulso dessas lutas que deu a vitória ao PT
em 2002.
A
estratégia seguida pelo PT ao assumir o governo foi o de tentar
aplicar políticas assistencialistas – muitas delas, recomendações
de organismos internacionais – conciliando-as com o que acreditavam
ser o “desenvolvimento econômico”. Garantiram não romper o
tripé econômico neoliberal, para tranquilizar o capital financeiro
internacional, bem como não atentar contra o imperialismo. Chegaram
ao cúmulo de enviarem tropas militares ao Haiti. Por outro lado,
enterraram o projeto de adesão do Brasil a ALCA, ampliaram os laços
com países como Cuba e Venezuela, fortaleceram o Mercosul e
impulsionaram a criação da UNASUL. Todas as medidas listadas
anteriormente, evidentemente, não representam nenhum golpe contra o
imperialismo, mas também não o agradam. Não é por menos que
partidos e organizações de direita, dos mais variados matizes,
atacam com virulência esse aspecto
da política petista.
O outro
aspecto que incomoda setores consideráveis das classes dominantes
brasileiras é a ligação que o PT possui com o movimento sindical,
com o movimento camponês e com a esquerda latino-americana de um
modo geral. Aqui, as forças reacionárias não estão interessadas
se tais movimentos são “revisionistas” ou “oportunistas”.
Para exemplificarmos: nós sabemos que a linha do MST não irá
conduzir as massas populares para a revolução proletária, em
alguns momentos até pode converter-se em fator de atraso, mas isso
não impede que a organização seja alvo de um violento ódio por
parte das classes dominantes.
Portanto,
considerar o PT como o maior
representante do imperialismo em nosso país, desconsiderar que todas
as principais forças ligadas ao imperialismo, no momento atual,
direcionam os seus canhões também contra o PT, é um equívoco
completo, fruto de uma análise totalmente equivocada da realidade
brasileira e das contradições de classe no momento atual. É uma
posição que, apesar de estar envolta por uma mística aparentemente
radical e revolucionária, na prática contribui com o fortalecimento
da reação e do fascismo.
Em um dado
momento do artigo da Unidade Vermelha, se reconhece que existem
tendências do PT que possuem aspirações anti-imperialistas. Pois
bem, façamos novamente a pergunta: é possível afirmarmos o mesmo
sobre partidos como PSDB, DEM? Entre os grandes proprietários dos
meios de comunicação da burguesia, existe pelo menos algum que
esteja pela “independência nacional” e possua bandeiras
“anti-imperialistas”? Evidente que a resposta só pode ser
negativa.
Na
nossa nota, em nenhum momento tentamos afirmar que as bases do PT
concretamente “mudam os rumos do governo” ou coisa que o valha,
apesar de em determinadas circunstâncias fenômenos como esse
poderem sim se produzir. O fato é que no caso específico das
manifestações “governistas” recentes, as
vozes da base divergiram totalmente da posição tomada pela direção
do PT. No ato do dia 13 de março,
fora algumas bandeiras que representam ilusões desses setores com o
governo, levantaram-se vozes contra a privatização da Petrobras;
contra os pacotes de medidas antipopulares propostos pelo governo;
contra a ingerência imperialista na Venezuela; contra o papel
exercido pelos grandes meios de comunicação monopolistas. Quem
atuou no sentido de tentar impedir a realização do ato foi
justamente a direção do PT.
Posteriormente, a direção do PT aceitou participar do ato graças a
pressão dessa base.
Essa
insistência em não enxergar tais fatos nos parecem mais uma
justificativa que a Unidade Vermelha encontrou para igualar
atos de caráter radicalmente distintos,
limitando-se a afirmar que nós
ignoramos a existência de um setor combativo” de movimentos
populares. É importante lembrarmos que, principalmente nas lutas que
se desenvolvem no campo, a combatividade também está presente de
diversas formas, mesmo nas organizações dirigidas pelo reformismo e
revisionismo. Não é a “combatividade” por si só que define o
caráter acertado da linha política de uma determinada organização.
Para nós, que conhecemos muito bem as disputas e diferenças de
linha existentes no movimento popular brasileiro, os setores citados
pelos camaradas da Unidade Vermelha também não possuem uma linha
inteiramente correta, apesar de os respeitarmos.
O MST e o MTST no Brasil e o MST e MTST na cabeça dos membros da UV
Há
alguns problemas sérios a apontar aqui, acerca de umas afirmações
levantadas sobre esses movimentos populares e seus respectivos
dirigentes. Muitos companheiros da UV são avançados em compreender
as contribuições elevadas do socialismo científico, que foram
conquistadas por meio da luta de classes e das novas condições.
Isso é fundamental, pois a teoria nos serve como guia para a
formulação de estratégias e táticas. Porém, é também de
fundamental importância acompanhar rotineiramente as relações
políticas, econômicas, bem como a movimentação dos agentes
políticos, seja à esquerda ou à direita. E sobre isso, em
particular sobre as posições do MST e MTST, a UV parece não dar a
devida atenção, na verdade, negligenciam esses movimentos a ponto
de afirmarem algo totalmente desconexo da realidade concreta.
A
UV tacha, por exemplo, o MST como um movimento reformista — o que
não é incorreto — mas subestimam sua capacidade tanto crítica
como prática, não compreendendo sua condição
oscilante e limitada
de movimento popular-democrático quando dirigido por uma linha não
avançada do proletariado, mesmo com posições normalmente
progressistas. Parecem idealizar um movimento popular-democrático,
porém lhes faltam aceitar a realidade concreta, e, assim, articular
uma linha política levando em consideração essa conjuntura. Não
somos inocentes, mas tampouco somos inconsequentes. Vejamos o que
dizem:
“Quando
o MST diz que
não existe mais latifúndio
e que ocupar terras não é mais uma necessidade, ou quando o MTST
exige a ampliação de programas governistas que garantem os largos
lucros às construtoras (...)”
Talvez
a UV tenha confundido a Kátia Abreu com o MST (1). Ou talvez não
tenham costume de ler seus documentos (2). Há algo errado quando os
companheiros afirmam que o MST diz que não há mais necessidade de
ocupar terra, sendo que em 24 de Janeiro deste ano fora realizado um
Prêmio Luta Pela Terra e João Paulo Rodrigues, da coordenação
nacional do MST, diz que “A
luta é que vai nos permitir formar novos quadros, enfrentar o estado
burguês e fazer alianças com outros setores. Esse é o compromisso
do nosso Movimento com os amigos e companheiros que estão aqui”
e finalizou dizendo que “nossa
principal universidade: a
ocupação de terra”
(3). Talvez o MST não
seja o mais avançado movimento agrário, mas a questão é: é
o movimento camponês hegemônico no Brasil, querendo ou não.
É o movimento camponês que, no ano de 2014, construiu diversas
ocupações, dando destaque à Fazenda Santa Mônica, em Goiás, do
Senador Eunício Oliveira. Reduzi-los de forma simplista como
“oportunistas” só manterá o movimento comunista à deriva.
A
UV critica o MTST por esse supostamente “exigir” programas de
moradia de governos. De fato, as grandes construtoras estão quase
fusionadas com o Estado e recebem superlucros. Mas quando afirmam tal
coisa, dão a entender como se o MTST aceitasse e concordasse com a
burocracia das empreiteiras, com a corrupção e a exploração, o
que não passa de mentira. Nas eleições, o MTST expôs as
empreiteiras como as grandes financiadoras de campanhas e suas
intenções. Como
movimento popular, ele pode e deve pressionar de baixo para cima e
exigir certas mudanças imediatas, emergenciais.
Ademais, os companheiros esquecem — ou talvez não saibam — que o
MTST utiliza da própria força para construir moradias e vem
realizando dezenas de ocupações nos últimos tempos. Recentemente,
Guilherme Boulos realizou uma fala sobre o 15 de Março (4).
Diferente da impressão que a UV tenta passar, a liderança do MTST
mais condena o governo federal do que o contrário. Chega a dizer que
nem “de esquerda“ o governo é. Aqui, também, parece a UV não
ter conhecimento sobre as articulações e movimentações do MTST. O
mesmo poderíamos dizer sobre Stédile. Se a UV buscasse as posições
dessa liderança, sem dificuldades saberia que Stédile passa boa
parte do tempo em criticar o governo petista, principalmente o de
Dilma, suas limitações, sua tecnocracia etc. O que fica evidente é
que os marxistas-leninistas precisam saber trabalhar com essas
contradições que se manifestam no seio do movimento popular,
acumulando forças para isolar as posições reformistas,
revisionistas e fazer avançar as posições revolucionárias.
Sob
um discurso de “combatividade” e revolucionarismo, a UV
negligencia tais movimentos populares e sua importância na revolução
democrática. Falam de combatividade como se isso fosse algum
critério para julgar linha política ou avanço ideológico. Pois
saibam, o extremismo — que em muito se assemelha ao anarquismo —
é totalmente estranho
ao marxismo.
Os marxistas sabem que é de fundamental importância o papel do
Partido de Novo Tipo na luta por reformas e na direção dessas no
seio da sociedade capitalista. A UV parece preferir reduzir tais
movimentos populares e suas lideranças a “oportunistas” e
“traidores” do que compreender a natureza
de classe
dessas organizações e seu papel oscilante e limitado dado as
circunstâncias, onde ainda não existe o Partido Comunista em nosso
país.
Combater o revisionismo de direita... mas também o de “esquerda”
A Unidade
Vermelha também aponta uma suposta “subestimação do
revisionismo” por nossa parte. Para qualquer pessoa que tenha lido
de maneira atenta a nota que publicamos, em momento nenhum o
revisionismo foi subestimado, muito pelo contrário: apontamos
exatamente qual foi o seu papel objetivo para a criação do cenário
político que se desenha no Brasil.
O que nós no recusamos é igualar o conjunto do movimento popular –
e aí estamos falando não só do petismo, mas também de movimentos
como o que a UV faz parte – com o fascismo em ascensão. Os
camaradas da UV precisam ter em conta que o
revisionismo não se apresenta somente em sua forma de oportunismo de
direita, mas também em oportunismo de esquerda. No
momento atual, tão grave quanto subestimar o revisionismo é
subestimar o perigo de ascensão fascista, principalmente em momentos
onde o proletariado encontra-se totalmente desarmado, ou seja, não
possui o seu partido revolucionário.
Acusa-se a URC de “reproduzir a
cartilha da II Internacional” e essa acusação simplesmente não
pode ser levada a sério, pois parece que a Unidade Vermelha está
confundindo anarquismo com bolchevismo, citando fora de contexto uma
frase do camarada Lenin. Ora, quando nós apontamos o perigo da
ascensão fascista e conservadora, apontamos que existe um perigo de
as classes dominantes estarem preparando a criação de uma situação
ainda mais favorável para intensificarem a repressão contra as
massas, não estamos deixando de considerar que os revisionistas e
reformistas são nossos inimigos no seio do movimento operário.
Contudo, as formas e métodos que utilizamos para resolver nossas
contradições com eles são radicalmente distintas de como
resolvemos nossas contradições com a burguesia e com os fascistas.
Importante frisar que em nossa
nota, em nenhum momento, defendemos a teoria do “menos pior”.
Apenas estamos apresentando a maneira como a luta de classes se
desenvolve no Brasil atual, buscando traçar a melhor tática de
atuação para o momento. Os apontamentos que fazemos não são
uma justificativa para apoiarmos o governo da Dilma ou qualquer coisa
do tipo, mas sim servem para manifestarmos nossa preocupação com o
crescimento do conservadorismo e do fascismo. Acusar-nos disso
mostra justamente que os camaradas da Unidade Vermelha não
entenderam a nota e seguem subestimando a ascensão reacionária.
O que está realmente por trás da ascensão reacionária?
A ascensão reacionária e
fascista de nada tem a ver com um “levante das massas contra a
corrupção” e por “melhores condições de vida” como pensam
alguns incautos – de direita e esquerda – mas antes são obra de
anos de trabalho propagandístico promovidos pelos meios de
comunicação burgueses (totalmente atrelados ao imperialismo), que
nos últimos anos e, em especial, após as manifestações de junho
de 2013, dedicam uma grande atenção em propagar todo tipo de lixo
ideológico reacionário, anticomunista em forma de panfletos,
livros, sites, programas de televisão, etc. Nesse sentido, o
imperialismo atua de modo parecido como fez no passado, usando
institutos de fachada, como o IPES e o IBAD.
Segundo a Unidade Vermelha,
estaríamos considerando como contradição principal a contradição
entre governo “minimamente popular” e o “fascismo”. Essa
colocação está totalmente equivocada. Para nós a contradição
principal no Brasil segue sendo a que existe entre a nação e o
imperialismo de modo que todas as outras contradições
existentes estão subordinadas a essa contradição principal. A
própria ascensão desse movimento reacionário, conservador e
anticomunista está totalmente ligada ao avanço da intervenção
imperialista no país, que visa promover um forte ataque contra o
movimento operário e popular no seu conjunto. Desse modo,
resulta em grave erro achar que o fenômeno em questão trata-se
apenas de uma contradição entre governo e um movimento reacionário.
Em análises simplistas, a
Unidade Vermelha considera ser realmente o PT o principal alvo do
ódio do fascismo, quando na verdade esse ódio está totalmente
dirigido ao movimento operário e popular no seu conjunto e não
meramente ao PT. Daí uma das bandeiras principais desse movimento
ser o anticomunismo e não ao fim da sabujice ao imperialismo. Só
isso já é fato suficiente para atestar que em tal movimento não
existe nada de espontâneo. Os camaradas da Unidade Vermelha, talvez
por ingenuidade, ainda nos perguntam quais seriam os critérios que
nos permitiria rotular como “fascista” o movimento reacionário
em ascensão, como se o fascismo fosse algo que estivesse muito
distante da realidade brasileira. Um movimento, de caráter
claramente antipopular, reacionário, dirigido por elementos ligados
diretamente ao imperialismo e ao capital financeiro, financiados pelo
mesmo, que promove abertamente o anticomunismo e ataques
contra o movimento operário e popular, só pode ser classificado
como fascista. Não precisamos fazer grandes analises teóricas a
respeito de um fato que já foi muito bem elucidado pelo conjunto do
movimento comunista internacional em outros momentos; nem, tampouco,
queremos aqui fazer uma discussão acadêmica sobre o que seria o
fascismo.
Talvez seja exatamente o
desconhecimento sobre o que é o fascismo que leva os camaradas da
Unidade Vermelha a classificarem a polarização política atual como
uma “disputa interfascista”. Essa formulação é apenas um
artifício que os camaradas encontraram para continuar tratando o PT
de uma maneira mais virulenta do que PSDB et caterva. É uma
saída aparentemente “radical”, mas que expressa um certo
comodismo, já que com ela os camaradas ficam “livres” de fazerem
uma análise das contradições de classe da sociedade brasileira
atual, bem como dessas mesmas contradições no interior do PT e do
movimento operário e popular. Repetimos: colocar no mesmo patamar as
massas petistas, reformistas, e os conservadores, reacionários, é
simplesmente dar mostras do total desconhecimento do que representam
esses últimos, ou seja, é comprovar que os camaradas desconhecem o
que estão falando. Se atentarmos
um pouco à situação conjuntural política brasileira, em debates
que ocorrem no Congresso Nacional, em posições abertas de alguns
catch all parties
em relação ao PT, nas disputas eleitorais, em projetos —
lembrando do recente Projeto de Lei do Senador José Serra que
pretende privatizar de vez a Petrobrás —, etc., facilmente veremos
diferença entre esses partidos, e que em muitos casos utilizam do PT
como espantalho para vociferarem ódio ao conjunto do movimento
popular e aos direitos sociais.
Para comprovar a campanha
dirigida pelos setores mais reacionários da burguesia brasileira
contra os movimentos populares no seu conjunto, cada dia mais
violenta, basta abrir um jornal e assistir um simples programa de
notícias da imprensa capitalista. O “estado de espírito” atual
das classes dominantes brasileiras, em um contexto de crise mundial
do capitalismo e consequente crise do regime semicolonial brasileiro,
mostra que existe uma tendência para a fascistização desse setor,
incomodado até mesmo com a existência de setores reformistas e
comportados do movimento popular. Por isso promovem o ódio
contra a “esquerda no geral”, sem diferenciar suas divisões e
várias tendências, como forma de criminalizar qualquer forma de
luta popular. Interessante notar que a Unidade Vermelha e a
imprensa capitalista parecem concordar em uma coisa: as manifestações
reacionárias, supostamente contra o governo, na verdade, são frutos
da “insatisfação do povo” contra os “políticos”, e os
elementos fascistas, que defendem abertamente o golpe militar e o fim
até mesmo da democracia burguesa são “meia dúzia de gatos
pingados”. Para podermos fazer uma melhor analise do caráter
das duas manifestações que estão no centro de nosso debate,
estivemos presentes nas duas e pudemos constatar empiricamente a
radical diferença entre elas, bem como o fato de que os
“pró-militares” na manifestação reacionária não eram “meia
dúzia”. Ora, quando a grande burguesia resolve desfazer de sua
máscara democrática e passa a atuar abertamente contra toda a
esquerda, o que não é isso senão o fascismo?
No
seio da cadeia mundial do imperialismo, devemos ser bem criteriosos
para fazer as análises de classes, não reduzir as coisas a extremos
e termos uma posição razoável e equilibrada relativa à realidade
concreta, ou seja, termos uma posição materialista dialética dos
fenômenos. Se pretendemos a reconstituição do Partido de Novo
Tipo, o partido revolucionário da classe operária, devemos ter
nítido alguns aspectos: 1)
A contradição fundamental, 2) a contradição principal e 3) as
demais contradições que se manifestam nas situações de classe,
lembrando sempre de levar em consideração o contexto internacional,
que possui um papel também importante. Se não soubermos lidar com
essas diferenças, não saberemos lidar com um programa mínimo e um
programa máximo, com estratégias fundamentais e imediatas e táticas
a se utilizar. Devemos nos esforçar em adotar uma posição razoável
exigida pela situação concreta para não confundirmos tática com
estratégia. E dado as circunstâncias, é preciso ser flexível e
aplicar bem um programa mínimo para futuramente estarmos em
condições de darmos grandes saltos. O momento político atual exige
maturidade política, paciência e firmeza na propagação das
concepções revolucionárias. Qualquer posição, que de uma maneira
ou de outra, subestime a situação política de ascensão
reacionária e conservadora contra o movimento popular de uma forma
geral e tudo aquilo que pelo menos lembre o movimento dos
trabalhadores, inevitavelmente engendrará desvios de direita e
esquerda, fato que prejudicará ainda mais a luta pela constituição
de um poderoso e influente Partido Comunista.
A
União Reconstrução Comunista continua com a sua posição de
denúncia do fascismo e da reação em todos os níveis. Opomo-nos às
políticas reacionárias que estão sendo preparadas pelo governo,
bem como denunciamos a chantagem dos partidos burgueses tradicionais
respaldadas pela ascensão conservadora e reacionária. Somente a
classe operária organizada em um partido revolucionário e unida
poderá fazer frente aos desafios que se aproximam. Daí ser de
extrema importância lutarmos de maneira ainda mais ativa para
propagandearmos as posições corretas do marxismo-leninismo e
reorganizarmos o Partido Comunista em nosso país, de acordo com o
desenvolvimento da luta de classes.
UNIÃO
RECONSTRUÇÃO COMUNISTA
São Paulo, 31 de março de 2015

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